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Existe Algum Problema em Ser Assistencialista? PDF Imprimir
Escrito por Miguel Fontes   
Ter, 29 de Setembro de 2009 15:34

Há mais de quinze anos venho falando sobre o valor sócio-econômico da promoção de conhecimentos, atitudes e práticas de segmentos específicos da população. Esses comportamentos podem ser relacionados com a prática de exercício físico, atitudes positivas sobre masculinidade, alimentação saudável, etc. Geralmente apresento essas dinâmicas dentro de uma visão do marketing social, reforçando o papel fundamental da gestão estratégica para o planejamento, implementação e avaliação dessas intervenções. Falo também, da necessidade de que essas ferramentas de gestão demonstrem que atuar no social é um grande investimento e não apenas uma distribuição de bens aos mais necessitados.


No entanto, embora seja o maior seguidor dos princípios dos conceitos estratégicos de mudança da sociedade, como o marketing social, a avaliação de impacto social, a responsabilidade social corporativa, as políticas sociais inclusivas (como políticas integradas de assistência social), e a pesquisa de determinantes além de tantos outros, me pergunto se devemos execrar o exercício das atividades meramente assistencialistas. Seriam elas atividades justificáveis apesar de apenas aliviarem necessidades emergentes de populações mais vulneráveis?


Para definir melhor o que é assistencialismo, precisamos recorrer, mais uma vez, ao entendimento da relação que se estabelece durante uma atividade puramente assistencialista. Se levarmos em consideração a definição do Dicionário da Cidadania da Fundação Bunge de que o assistencialismo é uma “doutrina, sistema ou prática que organiza e presta assistência às comunidades socialmente excluídas, entretanto, sem que seja elaborada uma política para tirá-las da condição de carência,” podemos ver claramente que os princípios estratégicos de transformação social não se encaixam nessa concepção.


Logicamente, qualquer ação na sociedade requer algum tipo de troca. Nesse sentido, o assistencialismo também pode ser interpretado como uma ação de benemerência em que o agente da ação também espera receber algum tipo de gratificação das “comunidades socialmente excluídas”. Isso pode ocorrer na forma de gratidão, senso de maior segurança, questões espirituais, etc. Caso contrário, não faria qualquer sentido uma ação puramente assistencialista, já que não consegue tirar ninguém da “condição de carência”.


De qualquer forma, mesmo não tirando dessa condição, o que fazer quando vemos claramente que uma comunidade socialmente excluída está em situação extrema de necessidades, como no caso de uma seca ou enchente?


 Sei que muitos poderiam dizer que um planejamento anterior por parte das autoridades poderia ter evitado essa situação. Ou seja, uma ferramenta estratégica poderia ter sido utilizada para evitar exatamente as causas da extrema carência. Mas a pergunta persiste, pois se o fato não pôde ser prevenido e a situação já ocorreu, será que a comunidade terá que esperar pelos projetos, planos, estratégias, etc. para ter acesso a serviços e produtos emergenciais?


O caso de Nova Orleans nos Estados Unidos após a passagem do Furacão Katrina é bem ilustrativo. Enquanto muitas comunidades se tornaram “carentes” da noite para o dia, o governo dos Estados Unidos demorou muito tempo para começar a investir no resgate das vítimas e reconstrução das comunidades arrasadas, por ficar esperando pelos programas, estratégias, etc. Se tivesse se concentrado em ações imediatas de entrega de serviços e produtos assistenciais, sem se preocupar em demasia com os sistemas, as chances teriam sido bem maiores de um alívio imediato das sérias conseqüências humanitárias.


Sendo assim, devemos sempre deixar claro que há situações sim, em que uma ação assistencial direcionada a comunidades em condição extrema de carência, é justificável e essencial! Essas ações assistenciais, sem objetivos de mudança ou fortalecimento de políticas sociais, poderão contribuir para aliviar uma situação grave, enquanto planos estratégicos de ação e transformação estão sendo elaborados, orçamentos definidos e profissionais capacitados.


Essas considerações valem também para as empresas que querem investir na área social. Nem todos os recursos alocados na área de responsabilidade social são caracterizados como investimento social privado. Aliás, a maior parte dos recursos das empresas ainda vai para ações assistencialistas. No entanto, as empresas não devem se envergonhar disso ou achar que devem caracterizar todas suas ações como “estratégicas”. No mundo ideal, realmente as ações planejadas e que poderiam ser genuinamente classificadas como investimentos, deveriam deixar de ser uma exceção. A transformação social sempre deve ser o foco da humanidade para reduzir o efeito estufa, os desequilíbrios sociais e melhoria da qualidade de vida. Porém, ter alguns componentes de assistencialismo pode fazer bem às comunidades carentes, como também ao espírito de seus líderes e representantes das diversas partes interessadas da empresa.



* Diretor da John Snow Brasil e PhD em Desenvolvimento de Alianças Público Privadas, Deptº de Saúde Internacional, Johns Hopkins University – SAIS.
 

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